Av Das Américas, 390 – B. Patrimônio
De início, para o conhecimento do leitor, gostaríamos de esclarecer que a palavra “Terrerão” não está grafada incorretamente. A própria denominação do Lugar está alicerçada na preservação da linguagem daqueles que ocupavam esse território. O “Terrerão do Samba” é um exemplar territorial de sobrevivência da cultura negra local.
Segundo Rogério Haesbaert, território deriva etimologicamente de Territorium, este termo possui dois sentidos: o primeiro sentido material, concreto e espacial e o outro imaterial,
simbólico. Assim, determinado sujeito ou grupo delimita um espaço material como sendo seu, para que esse espaço seja mantido é necessário exercer o segundo sentido do termo, o imaterial. Por isso, o bem cultural foi Registrado como Patrimônio Imaterial na categoria Lugares, pois, sem o simbolismo deste espaço, ele seria apenas um terreno com área de aproximadamente 3.050 m2, com diversidade arbórea.
Para que possamos entender sua história é imperioso voltar nossos olhares para o bairro onde o “Terrerão do Samba” está implantado, o Bairro Patrimônio de Nossa Senhora da Abadia, mais conhecido apenas como Patrimônio.
Em 1883, o Fazendeiro José Machado Rodrigues doou doze alqueires como Patrimônio da Santa Nossa Senhora da Abadia. Na área mais alta, o fazendeiro erigiu um Cruzeiro de oitenta palmos de altura, simbolizando a fundação do Patrimônio da Santa. Em 1960, atingido por um raio, o cruzeiro sofreu incêndio. Posteriormente, outro raio o danificou irreversivelmente.
Nessas terras as famílias descendentes de escravos e de baixa renda se refugiavam. Seus moradores trabalhavam no Matadouro Municipal e na charqueada Omega temporariamente.
Além do trabalho, estes lugares forneciam restos de carne e ossos que serviam de alimento à muitas famílias residentes ali.
A rua mais antiga do bairro Patrimônio se chamava Rua Santo Antônio e consistia na continuação da Rua General Osório que iniciava no centro da cidade de Uberlândia. Portanto, a proximidade espacial do Bairro Patrimônio à região central, tem levado paulatinamente a especulações imobiliárias, descaracterizando materialmente este território.
O “Terrerão do Samba”, espacialmente localizado próximo ao Cruzeiro, é lugar de referência para seus moradores, onde a cultura centenária do Bairro Patrimônio, com todas as suas nuanças, sobrevive, pois ela foi urdida com os fios das atividades culturais e sociais que ainda alicerçam a sua vitalidade. São as vivências históricas, cotidianas da comunidade negra que afirmam ser este local o lugar de pertencimento, de memórias, lócus experiencial de cultura e fé de seus antepassados de descendência africana das quais os netos, bisnetos dos escravizados fizeram uso para resistir, por meio dessa memória vinda de África. Desse modo, são essas relações que legitimam a existência do “Terrerão do Samba” e a sua permanência como lugar de resistência e de devoção dos atores sociais afro-brasileiros em Uberlândia.
O “terrero”, de propriedade de D. Rosária Marcelino e família, na maioria das vezes, era o único recurso disponível nos momentos de aflição, desconfortos, dores e angustias. Anteriormente católica, ela se tornou praticante da Umbanda. Fazia benzições sendo procurada por muitos em diversos momentos para alivio de múltiplos males físicos e espirituais. Sua prática terapêutica permitiu que ela fosse reconhecida, por muitos, como liderança religiosa, com um saber curativo que na maioria das vezes era o único disponível para a grande maioria dos moradores do entorno, já que as políticas públicas no âmbito da saúde não atendiam a demanda desta população.
Segundo depoimentos, o lugar preserva algumas espécies arbóreas que representam as entidades espirituais da umbanda e os símbolos que Dona Rosária fazia uso em seu trabalho de cura pela fé. Existe o coqueiro rei, que pertence à “Entidade do Senhor Mané Baiano”, sustentado por outros pequenos coqueiros onde permanecia um facão enterrado, dentre outras singularidades detalhadas por pessoas conhecidas de D. Rosália.
Atualmente, o espaço serve para os ensaios e planejamentos da Escola de Samba Tabajaras e festividades com intenção de arrecadação de fundos para a manutenção das Festividades da Congada e do Carnaval.
Assim sendo, o valor imaterial desse lugar é inestimável. Ele guarda a história de um passado de fé, religiosidade, sociabilidades, memórias, pertencimento, servindo como referência e salvaguarda da cultura negra da cidade de Uberlândia.