Críticas Festival de Dança do Triângulo

por Amanda Queirós

Escrita por Prosper Mérimée em meados do século 19, a trágica história que embala o balé “Carmen” segue terrivelmente atual. As chaves de leitura para ela, no entanto, mudaram radicalmente. Sob a luz do romantismo, essa era uma obra sobre as loucuras cometidas em nome da paixão. Aos olhos de hoje, esse é um relato sobre o absurdo do feminicídio. 

É sob essa perspectiva que o coreógrafo Luiz Fernando Bongiovanni se aproxima da personagem-título na versão criada por ele para o Balé Teatro Guaíra, em 2016. O espetáculo abriu o 27º Festival de Dança do Triângulo na noite da última terça-feira (28), marcando a estreia da companhia paranaense em Uberlândia.  

A bailarina Karin Chaves empresta a Carmen um carisma essencial para guiar o público em sua jornada. Única do palco vestida em vermelho, em meio a tons de preto e cinza, ela capricha na sinuosidade de seus movimentos, provocando um contraste direto com os gestos mais retilíneos de Dom José, interpretado por Carlos Matos. 

A oposição entre eles é reforçada pelo peso do corpo de baile, dividido entre mulheres e homens. Elas espelham a heroína, enquanto eles emulam o militar, e esse coro ajuda a perfilar com mais clareza a distinção entre os personagens, ritmados pela reinterpretação de Rodion Shchedrin para a trilha de Georges Bizet (1838-1875).  

Logo, Carmen revela-se não apenas uma mulher livre e guiada por seus desejos, mas alguém ciente do papel de sua sexualidade como mecanismo de defesa e de sobrevivência em um mundo no qual os homens ainda mantêm o domínio. Isso é retratado, de forma engenhosa, na cena em que a protagonista é encarcerada após uma briga com uma colega. 

Fardados e enfileirados, conectados pelos braços nos ombros uns dos outros, os bailarinos fazem as vezes das grades responsáveis por conter Carmen. É uma metáfora do próprio machismo, que ela contorna com dança, sedutoramente, para retomar sua liberdade perante uma já apaixonado Dom José. 

A história se passa na Andaluzia, e Bongiovanni faz questão de ressaltar esse aspecto ao carregar nas tintas hispânicas até mais do que na mais famosa versão do balé, coreografada por Roland Petit (1924-2011), de 1949. Isso se dá, em grande parte, na profusão de rotações de pulso das garotas, trazendo de imediato um ar de flamenco para a cena. Há também breves momentos de falas nas quais se busca certa sonoridade estereotipada do idioma espanhol. O ápice do exagero nesse quesito, no entanto, está no Escamillo incorporado por João Victor Rosa.

Pivô dos ciúmes de Dom José, o toreador é apresentado de forma quase cartunesca, como exemplo de um homem que se acha mais do que realmente é. Carmen tem a exata noção disso: Escamillo é um divertimento. O tom jocoso com o qual ele se revela parece sublinhar a irracionalidade do que vai se desenrolar: afinal, é por esse sujeito que ela será morta? 

Nesse sentido, é preciso destacar a interpretação de Glória Candemil na pele de Micaela, noiva abandonada por Dom José. Todo o corpo dela se move como um grito desesperado pela atenção do amado, tornando dramaturgicamente coerente vê-la empurrá-lo contra sua rival. O papel também confere protagonismo a uma perspectiva do feminino distinta da de Carmen.

Narrar histórias com dança é um trabalho complexo, especialmente quando se decide abrir mão da pantomima, como faz Bongiovanni. Ele crê na força dos corpos dos bailarinos, mas seu principal trunfo está em abrir mão do detalhamento cena a cena para se concentrar no que há de mais básico e instintivo na obra: as relações humanas. Com isso, estabelece uma comunicação mais imediata com o público para destacar o que daqueles personagens ele pode encontrar dentro de si mesmo, para o bem e para o mal, encaminhando o questionamento ético da trama para quem a assiste.

por Amanda Queirós

As referências que o coreógrafo Alan Keller traz para dentro de seu “Tchibum”, apresentado na última quarta-feira (30) no 27º Festival de Dança do Triângulo, não parecem ter qualquer conexão entre si. Por um lado, há o tom satírico do semanário francês Charlie Hebdo. Por outro, há a crise hídrica que assolou o Brasil há alguns anos. O que se vê em cena, no entanto, não é uma coisa nem outra – e, na realidade, isso é ótimo.

Criador em 2015, “Tchibum” é um espetáculo bem humorado sobre um exercício de convivência. A água é apenas o pretexto para esse encontro, dado que a ação abandona as proporções avantajadas do palco do Teatro Municipal para ocupar uma diminuta piscina de plástico situada ao centro dele, dentro da qual os oito bailarinos da Paraopeba Cia de Dança situam praticamente toda a sua dança.      

O comprometimento da visualização das pernas por causa dessa estrutura parece atiçar a criatividade de Keller, que reforça, assim, o trabalho de tronco e braços e, quando possível, insere até mesmo alguns saltos. O que chama mais a atenção, no entanto, é o domínio preciso dos bailarinos quanto à distribuição de um espaço cênico tão reduzido. Isso se dá por um intenso processo de escuta, mas, também, por muito ensaio para saber exatamente onde pisar sem interferir na movimentação do outro.

Saber abrir espaço para o outro na hora certa e encontrar o lugar que se deve ocupar – seja sob os holofotes ou na penumbra – são algumas das lições propostas pela coreografia enquanto os bailarinos dançam ao som de canções francesas ou sob uma iluminação avermelhada que dá toques de densidade a  uma obra pautada pela leveza.

A chegada da água à cena, apenas ao fim, é transformada em um momento de festa – uma sugestiva pool party. Isso produz momentos de beleza plástica quando os bailarinos sacodem as garrafas que têm nas mãos e seu conteúdo é projetado ao ar, criando desenhos efêmeros a partir dos movimentos de dança. É uma celebração da vida, possível apenas a partir desse líquido tão precioso, e cuja importância é ressaltada aqui sem qualquer tom de sermão.   

Primeiro dia da Mostra Amadora tem destaques no jazz e na dança de rua

A apresentação da Paraopeba Cia de Dança foi seguida pela primeira noite dedicada à Mostra Amadora. Na seara do balé, foram apresentados trabalhos condizentes com as idades das pequenas bailarinas, mais focados no senso de coletividade e com uso elaborado do espaço. Uma dica para o Grupo Arte e Cultura Sesc Uberlândia é trabalhar a tonicidade dos braços, enquanto a Cia de Dança Priscilla Simari pode valorizar a coreografia ao conferir uma atenção maior ao fortalecimento dos pés.

Composto por garotas um pouco mais velhas que esses outros grupos, o CRNS levou ao palco um “Can Can” repleto de liberdade, destacado pelas linhas alongadas das bailarinas. Vale ressaltar, no entanto, que a euforia da interpretação precisa encontrar um ponto de equilíbrio com o rigor da técnica.

Já as danças étnicas da noite apostaram na diversidade. A dança do ventre se deixou contaminar pelo forró do trio da Cia de Dança Anjum, propondo uma conexão entre estilos que pareciam totalmente distintos e mostrando o quanto um pode se valer do outro para encontrar novos desdobramentos. É uma mistura tão interessante que poderia escorrer para as transições entre as cenas.

Enquanto isso, a “abuela” da Cia Dança Cigana Nana Gonzaga também se aproximou de outro elemento de brasilidade, o carimbó, especialmente na interação da intérprete com a saia – e o prazer em estar presente ali fez com que ela, mesmo sozinha, tomasse conta do palco. Outro diferencial entre os étnicos foram os rapazes do Grupo Makin Khalid, revelando a dança árabe sob uma perspectiva masculina, algo pouco visto do ponto de vista cênico, com direito a uma virtuosa manipulação de bastões.   

Puxados por bailarinos com Down ou outras deficiências (e abraçados completamente pela plateia), a Academia Ritmo DS e o Dançando com a Vida conferiram ao Teatro Municipal um aspecto de pista de dança democrática e acessível. Não importou o ritmo ou o andamento das passadas: ali eles provaram que todos podem coexistir dentro desse mesmo espaço.

No campo da dança de rua, o destaque ficou para a qualidade do uníssono do Grupo GMV, que optou por uma coreografia mais simples, mas com movimentos precisos e limpos, capazes de imprimir um aspecto uniforme a um conjunto diverso. No caso da Casa Street Dance, a tônica pareceu ser justamente o reforço da heterogeneidade de um grupo bastante numeroso, enquanto a Companhia de Dança Casa explorou desenhos que extrapolam a frontalidade dos crews e o duo All Black apostou na força de comunicação do corpo em sua integridade ao fazer seus intérpretes dançarem com os rostos completamente cobertos.    

A dança de salão se fez presente por abordagens completamente distintas. Enquanto a Academia Ritmo DS fez uma apresentação mais convencional, colocando um tarimbado casal para misturar tango e samba, William Luciano de Oliveira injetou novas camadas de interpretação a seu número. Isso incluiu uma trilha executada ao vivo em flauta e piano, uma composição cenográfica com papel picado ao chão, sobre a qual ficavam desenhados os rastros das passadas do bailarino, e também a opção de subverter a clássica parceria entre homem e mulher ao colocar um casal de homens para dançar, levantando de forma leve uma discussão sobre gênero nesse universo.

A Escola de Dança Malu Vidal entregou um conjunto de jazz coeso e tecnicamente forte, apesar de o miolo da coreografia parecer alheio à proposta crítica anunciada no início e no fim da obra. Nesse estilo, o Grupo Arte e Cultura Sesc Uberlândia também apresentou um número com toque crítico, mas mais focado na interpretação do que na execução dos passos.   

Faltou falar do contemporâneo, representado em três momentos. A coreografia do Núcleo de Dança Priscila Prates trouxe grande plasticidade, mas faltam nela momentos que favoreçam a conexão entre o público e a solista. O trio do Grupo GMV, por sua vez, apresentou bailarinas limpas e com domínio suficiente do corpo para modular diferentes dinâmicas de braços, produzindo contrastes que ecoam a próprio trilha, que opõe batidas pesadas à poética canção Rosa de Hiroshima. Por fim, a Escola de Dança Malu Vidal pôs em cena um conjunto numeroso de palhaças que souberam lidar com transições de desenho complexas sem abandonar em nenhum momento o vigor da interpretação clownesca, demonstrando maturidade para um elenco ainda bastante jovem.

por Amanda Queirós

O título de “Empodere as Mulheres!” é, de cara, uma carta de intenções do que a Cia de Dança Bittencourt visa apresentar neste espetáculo, responsável por abrir a terceira noite do 27º Festival de Dança do Triângulo na última quinta-feira (31). 

Mais do que uma obrigação, o verbo no imperativo e o ponto de exclamação ao final pressupõem uma urgência em torno de uma pauta quente: a primavera feminista que vem varrendo o mundo nesta década.

O roteiro do espetáculo parece cumprir um checklist das principais questões em torno do tema. Há cenas sobre abuso sexual, assédio, aborto, machismo, autoaceitação… Até a maternidade bate ponto, personalizada em uma bailarina grávida e totalmente na ativa. Os blocos tomam uma posição clara em defesa da autonomia da mulher em todas essas situações, e isso é exposto de forma bastante direta. 

A rápida conexão que a obra estabelece com o público é, ao mesmo tempo, sua fortaleza e sua fragilidade. Bem ensaiados, ágeis e embalados, em grande parte, por canções pop, os números provocam uma empatia quase instantânea. Esse poder de comunicação é meta para muitas companhias, mas ele carrega também uma armadilha: a cultura da “lacração”.

O trabalho coreográfico de exaltação da força feminina é feito com execuções virtuosas que, dentro do contexto de festivais, produzem reações apaixonadas, como gritos e aplausos a todo momento. É um sinal de adesão imediata do público, mas que o distancia de um encontro com reflexões profundas e necessárias, especialmente em relação a um assunto tão complexo quanto o proposto aqui.

Trabalhando a partir de uma leitura contemporânea do jazz dance, a coreógrafa Karyne Bittencourt explora, muitas vezes, o aspecto mais sensual do estilo, numa exaltação ao corpo e à sexualidade da mulher. Suas cenas funcionam bem de modo isolado, e um encadeamento mais fluido entre elas – por um trilha sonora contínua ou um vocabulário gestual recorrente – injetaria força ao discurso pretendido.   

Apesar de a companhia ter sua base em um conjunto numeroso, o solo dançado por Karyne ao som de Elza Soares se revela um dos momentos mais interessantes do espetáculo. Ao chão, ela demonstra domínio na fragmentação de seus movimentos e uma dinâmica ágil em sequências de automanipulação. Essa consciência a deixa livre para canalizar suas energias para a interpretação, enriquecendo as leituras possíveis do que se vê. Karyne se apresenta, portanto, como uma coreógrafa promissora em processo de construção de uma assinatura. Vale a pena prestar atenção nos próximos passos dela. 

Mostra amadora ganha reforço de sapateado e flamenco

O linóleo do Teatro Municipal teve um breve momento de descanso na segunda noite do 27º Festival de Dança do Triângulo, quando bailarinos de sapateado e flamenco puderam colocar seus pés para trabalhar sobre o palco.

As garotas do Uai Q Dança apresentaram duas coreografias com perspectivas bem diferentes uma da outra. Embalada por uma toada jazzística, a primeira se revelou uma obra sóbria e elegante, na qual o som dos sapatos parecia delicadamente medido com o objetivo de não ultrapassar demais o volume da música. Já a segunda fechou o dia em diálogo com o espetáculo de abertura, valendo-se de certo ar grunge para exaltar a força feminina a partir do choque dos pés com placas de metal.

Enquanto isso, as bailaoras do Estúdio Flamenco Veruska Mendes trouxeram um número de inspiração contemporânea, ritmado com percussão ao vivo, e um duo mais tradicional, repleto de feminilidade, com ênfase para a habilidade das artistas na manipulação de elementos como leques, xales e saias.    

Para além dessas performances, o cardápio de danças étnicas foi eclético. Confortável em cena, Carolina Moreira Coelho driblou as camadas de sua saia e desenrolou um carismático número de dança do ventre, enquanto o duo da Caravana Luz de Isis narrou um romance cigano. Presentes na primeira noite da Mostra Amadora, os rapazes do Grupo Makin Khalid voltaram em número maior, com uma coreografia de origem popular que ainda carece de um forma cênica mais bem amarrada.

O Studio Sonhart Ballet foi o único representante da dança clássica na noite, e o fez bem. O jovem elenco se revelou um conjunto harmonioso, musical e competente, sem esquecer de demonstrar amor à dança. Também isolado, mas no campo da dança de salão, a Academia Inovadança provou ser possível dançar a dois ao som de Michael Jackson, explorando um arranjo de bolero para as músicas do rei do pop.  

Já as apresentações de jazz, contemporâneo e estilo livre ganhariam com um trabalho coreográfico mais dedicado a transmitir a personalidade de quem dança em vez de priorizar as habilidades técnicas de seus intérpretes.

A noite contou ainda com três representantes da dança de rua em diferente estágios de maturidade cênica. Em um número de estrutura coreográfica básica, a turma do Geração Arte encontrou sua bossa em um quê de passinho. O Dancing Casa Segismundo, por sua vez, buscou se diferenciar ao apostar em referências aos gladiadores, e teria sido interessante ver isso explorado para além dos figurinos e da música, na criação de movimentos capazes de misturar o gestual atribuído a esse universo à movimentação quebrada do street.  

Essas alegorias passam longe da obra apresentada pela Udi Company. Com uma linha de trabalho mais raiz, o grupo entrou em cena com a confiança de quem sabe da qualidade técnica de seu elenco. O domínio certeiro da movimentação permitiu aos bailarinos explorar uma coreografia mais complexa, com entradas e saídas do palco e composição de desenhos surpreendentes, produzindo uma experiência tributária às origens da dança de rua, mas com uma roupagem perfeitamente adequada às peculiaridades da caixa cênica.

por Amanda Queirós

A ideia de “Geléia Geral” remete a uma mistura cujo resultado torna praticamente impossível a distinção de seus ingredientes de origem. É uma proposta que tem tudo a ver com o DNA da Crütz Cia de Dança, dedicada a investigar outras possibilidades para a dança de rua a partir de uma abordagem contemporânea. 

Esse percurso produz algo novo, e a surpresa das descobertas de movimentos e das interações que eles estimulam entre os bailarinos injetam um bem-vindo frescor ao terceiro trabalho da companhia carioca, apresentado na última sexta-feira (1°) no 27° Festival de Dança do Triângulo.  

Faz todo sentido, portanto, que a trilha sonora do espetáculo se baseie no tropicalismo, responsável por abraçar fusões desse tipo dentro da música brasileira. Os passos de Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé no álbum “Tropicália ou Panis Et Circensis”, de 1968, servem de norte para o grupo traçar um percurso de reinterpretação desse movimento sem buscar, necessariamente, imitá-lo. 

Em paralelo, a riqueza melódica e a poética dessas canções surge atualizada nos corpos de um elenco jovem, disposto a revelar a relevância desse universo a uma nova geração.

O colorido da cenografia idealizada por Clívia Cohen, composto por uma cortina feita com 120 mil fitinhas do Senhor do Bonfim e uma cruz centralizada, ao alto, remete a um certo elemento regionalista, mas sem caricaturas. Trata-se de uma praça de interior, espaço onde artistas podem encontrar seu público de forma mais direta e deixar-se serem afetados artisticamente por ele. 

São esses encontros que provocam a novidade, e a Crütz parece celebrar isso o tempo inteiro. Se de início cada bailarino é apresentado sozinho, como um indivíduo isolado, logo eles se reúnem na forma de uma trupe, algo na linha dos trabalhos da também carioca Barca dos Corações Partidos. Nessa colcha de retalhos, costurada a 18 mãos, surgem histórias de duelos e romances, de brincadeiras e críticas de costumes, observadas do banco da praça e reprocessadas na forma de dança.

A coreografia de Lucas Sauer e Ricardo Lima acena para elementos das danças populares e incorpora o trabalho de pés das danças urbanas à capoeira, tudo de forma muito orgânica. Ela também sabe lidar com elementos mais dramáticos e teatrais, como visto no timing dos intérpretes na poderosa cena embalada por “Divino Maravilhoso”, um grito artístico sobre a força do coletivo diante da intolerância. 

Com alegria e entusiasmo, a Crütz parece justificar o tempo todo porque dança. Ela o faz não apenas pelo simples prazer do ato em si, mas para nos lembrar da potência gerada por essa energia especialmente quando estamos juntos e nos deixamos afetar uns pelos outros nesta geleia geral que é a vida. 

Contemporâneo traz abordagens densas na terceira noite da Mostra Amadora

Incomunicabilidade, sofrimento humano e repressão são questões que atravessam o debate público atual. Como a arte espelha a vida, não surpreende que eles assumam a forma de dança no palco do Teatro Municipal.  O que surpreende – isso sim – é ver temas complexos como esses trabalhados de forma artisticamente relevante quando se tem uma duração de tempo tão curta para desenvolver cada ideia, como é o caso da Mostra Amadora.

Isso não impediu a Berg Cia de Dança, por exemplo, de usar seus poucos minutos para levantar uma discussão sobre a necessidade de livre expressão. Iniciada no meio da plateia com um jogral um tanto vacilante dos versos de “Comida”, dos Titãs, a obra se adensa quando chega ao palco ao som de “Cálice”, de Chico Buarque. A canção é praticamente um hino contra a repressão e inspira a criação de cenas fortes, remetendo a torturas e aprisionamentos, a partir de uma manipulação inventiva de um conjunto de cadeiras. Em cena, vê-se uma dança que quase não consegue se realizar, sucessivamente interrompida, mas que insiste em continuar até não poder mais.

O uso de recursos cênicos também ajudou a intensificar o discurso da Vidançarte Escola de Dança e Arte, em uma coreografia em homenagem às vítimas do desastre de Brumadinho. Manuseando faixas de tecido de tom ocre de uma ponta a outra do palco, o grupo aludiu à imagem de um rio de lama, reforçada por sucessivos canons, sem esquecer de transpor a dramaticidade da situação para o corpo dos bailarinos.

Em paralelo à abordagem de temas da realidade social estiveram números também densos, mas mais focados em questões do indivíduo e sua relação com o outro. O Grupo Talentos Jovem falou sobre isso a partir de um uso intensivo do cenário, composto por faixas de cortina transparentes e um tapete vermelho felpudo, e a interação com esses elementos provoca novas percepções sobre combinações de passos já tarimbados.

No caso do Studio A, não foi preciso de artifícios cenográficos para criar a ambientação austera pretendida pela coreografia. A composição de luz repleta de sombras, os figurinos em tons de cinza e o caráter soturno da música prepararam terreno para uma concepção que produz um interessante contraste ao agrupar um número considerável de bailarinas em cena para evocar certo sentimento de solidão. Enquanto isso, o solo de composição livre da Alex Academia soube fazer uma boa utilização do palco, especialmente no diálogo com a iluminação, com uso de deslocamentos que despertam a sensação de o bailarino correr atrás do espaço.

Apesar do grande volume de obras em torno de questões tão sensíveis, a terceira noite da Mostra Amadora teve espaço para a leveza, especialmente por meio das danças étnicas. A Cia Cedro do Líbano trouxe o primeiro conjunto de dança do ventre do festival, apresentando uma diversidade de corpos na prática desse estilo, trabalhando a ideia dos véus como asas de borboletas e compondo um colorido de movimentos responsáveis por preencher o palco.

O véu também se fez presente em um novo solo de Carolina Moreira Coelho, que usou o elemento para agregar um toque noturno a sua performance. Em contraposição, o Studio V Escola de Dança encenou um duo solar, tanto no figurino quanto na coreografia, praticamente sem interrupções de movimento.

Esse vigor escorreu pelo segundo número da Cia Cedro do Líbano, agora na vertente da dança indiana, respondendo com uma bem ensaiada coreografia à euforia da trilha – um entusiasmo que a Cia Dança Cigana Nana Gonzaga deixou a dever um cadinho, apesar da proposta expansiva da apresentação.

Único a defender a dança de salão, William Luciano de Oliveira, que já havia se apresentado dia 30, retornou com mais um duo masculino, agora no campo do tango, focando menos na sensualidade do estilo e mais na execução técnica dos passos, realçando as nuances da música.  

Entre os representantes da dança de rua, o Fúria do Guetto arriscou um número com acessórios luminosos. Operados no blecaute, eles acabam por se sobrepor à própria qualidade do movimento, ofuscando o esforço dos próprios bailarinos. A turma do Brox, por sua vez, encontrou como diferencial a adoção de sequências no chão e canons bem marcados, enquanto o DCJ apostou em uma coleção saltos mortais que, por vezes, desviavam a atenção do bom trabalho de conjunto exposto ali.   

O jazz contou com dois duos. O do Fama – Projeto Social acabou adotando uma roupagem contemporânea, com bastante uso do chão, enquanto o da Cia Alex dos Anjos manteve uma dinâmica de movimento sem muitas variações. Houve ainda um conjunto da Vidança Escola de Dança de Arte baseado no gestual clássico do estilo. A adoção de uma dinâmica de videoclipe, no entanto, incorporou bom humor e abriu espaço para os bailarinos encarnarem a diva pop que há dentro de cada um.

A noite teve ainda balé, e as garotas do Studio A revelaram postura elegante e presença de palco. Entretanto, em uma coreografia tão dependente dos deslocamentos em bourrées nas pontas, vale tomar um pouco mais de cuidado na execução para garantir o efeito “deslizado” do passo. Já a Enigma Dance Company trouxe um duo infantil cujos melhores momentos demonstram interação entre as duas meninas em cena. Na única obra de repertório da noite, do Fama – Projeto Social, vimos uma Swanilda com razoável desenvoltura técnica, abrindo espaço para que ela possa lapidar a expressividade do tronco e dos braços com maior autonomia em relação aos movimentos das pernas.

por Amanda Queirós

Por problemas técnicos, a coreografia “Marta!”, do Grupo Talentos Jovem, precisou ser reapresentada durante a Mostra Profissional, ocorrida na noite do último sábado (2), no 27º Festival de Dança do Triângulo. E que bom que isso aconteceu!

O trabalho concebido por Felipe Gonçalves de Souza toma emprestado o áudio de uma rixa viralizada na internet para propor uma espécie de duelo dançado. Deu tão certo que a obra saiu de lá com o primeiro lugar da competição.     

É fácil explicar o sucesso de “Marta!”. Para além do bom humor despertado pelo diálogo da trilha, há um esforço no desenvolvimento de personagens a partir da criação de um vocabulário de movimento próprio para cada uma delas. Elaborado com fragmentação gestual, ele permite a construção de “frases” para acompanhar as próprias falas das protagonistas. A precisão de Bianca Romero e Julia Angoti no encaixe do timing do áudio reforça a ideia de conversa, provocando um pingue-pongue do olhar do espectador, alternado entre uma e outra, quase como numa batalha de dança.  

Essas mulheres discutem na rua por conta de um suposto calote. Apresentada sem rodeios, a trama captura instantaneamente o público, colocado na figura do vizinho de prontidão, na janela, para acompanhar o desenrolar do barraco.

Não tem jeito: nós, seres humanos, adoramos nos envolver com histórias, e essa é, ao mesmo tempo, popular e visceral – por isso nos toca tanto. O vídeo transformado em meme apenas amplifica o alcance de algo que, antes, era replicado a partir do boca a boca de quem havia testemunhado tal situação.

“Marta!” faz justamente isso ao nos relatar esse mesmo episódio, mas por meio de dança. É um exemplo de obra que parte de algo local, embalado por um sotaque cheio da mineiridade de Uberlândia, para alcançar o universal. Ao enxergar originalidade no banal, o trabalho aponta para a riqueza de inspirações presentes ao nosso redor.

O Grupo Talentos Jovem contou com outra coreografia na competição. “Henrique” revelou bailarinos conduzidos por certa sensação de sufocamento. Uma das principais habilidades técnicas da coreografia, dominada pelo grupo, é a capacidade de extravasar a energia do movimento para o exterior e conseguir retraí-la rapidamente, provocando no corpo o efeito de respiração determinante para a obra.     

Uma outra divisão desse mesmo coletivo foi ainda a responsável por angariar o quinto lugar da premiação. Com “Gala”, o Grupo Talentos se valeu do jazz para dar uma cara de baile chique ao Teatro Municipal a partir de uma coreografia baseada em standards do gênero, executados de forma elegante e limpa e utilizando a boca de cena para quebrar a quarta parede.   

Líder do grupo, Karyne Bittencourt apresentou também o solo “Maria da Penha”, extraído do espetáculo “Empodere as Mulheres!”, da Cia de Dança Bittencourt, atração do Festival no dia 31. A fragmentação de movimentos e as sequências de automanipulação ali presentes são assinadas por Valeska Gonçalves, em um esforço de reorganização do material coreográfico incorporado em sua experiência como bailarina da goiana Quasar Cia de Dança.  

Falando dos números contemporâneos ou de composição livre, vale lembrar da Cia It de Dança e seus dois trabalhos em cena, um duo lírico sobre encontros e desencontros e um solo, ambos tecnicamente corretos, mas sem muitos desafios coreográficos. Já o Grupo GMV levou ao palco um solo de perfil acrobático, igualmente sem grandes modulações quanto às movimentações. No caso do Grupo Atividança, as sequências se apoiam no manuseio da longa saia dos bailarinos, mas não conseguem extrair dela elementos diferentes ao longo da apresentação.

O segundo lugar da Mostra Profissional coube a “Devaneios”, da Escola de Dança Malu Vidal. Embalada por uma sonoridade industrial, Michely Boaventura apresentou um solo de marcações precisas e com limpeza de execução. Boa parte da dança se desenrola no plano baixo, conectada ao chão, apoio no qual ela ancora o principal trunfo da performance: a variação de dinâmicas nos movimentos, com graduação segura da intenção e da velocidade dos movimentos. A bailarina voltaria à cena pouco depois em “Lapsos”, um duo sobre amor e ódio tecnicamente correto, que explora o caráter longilíneo dos intérpretes.

Após terem participado da Mostra de Espetáculos na noite anterior, os cariocas da Crütz Cia de Dança concentraram movimentações de dança de rua em “Sozinho” e conquistaram o terceiro lugar da Mostra Profissional. Ao som da canção extremamente sentimental de Caetano Veloso, o grupo faz jus ao título da coreografia e coloca os bailarinos para dançar isolados mesmo quando executam movimentos semelhantes. A aparência é de que não há conexão entre eles, mas volta e meio surgem canons nos quais o movimento é uma evolução daquilo construído pelo colega, como uma reverberação.

Esse elemento também foi trabalhado pela segunda obra em disputa pela Crütz. “Tempo Perdido” se inspira nas ideias de arrependimento e de passagem do tempo e as expõe por meio de acelerações e desacelerações, com execuções esmeradas.

Parte considerável dos concorrentes da Mostra Profissional se concentrou na dança do ventre. Nos dois conjuntos de A Gaia Company, a coreografia se debruça mais na ideia de movimento provocado a partir do coletivo do que na virtuose individual dos bailarinos, com boa exploração do espaço e figurinos caprichados. No caso do quarteto da Companhia Marzuq, busca-se mais ousadia em termos técnicos, mas com menos qualidade de uníssono.

Houve inclusive solistas na disputa. Apesar de ter boa postura em cena, Camila de Oliveira Rocha revelou pouca firmeza nos lances de perna ao ar, enquanto Letícia Rodrigues apresentou um solo correto com espada. Quem roubou mesmo a cena nesse estilo foi Andrea Gaia, premiada com o quarto lugar.

O título do trabalho, “Arte que Liberta”, sintetiza a performance da bailarina. Sozinha em cena, ela preenche o palco, destilando sua vontade de dançar. Mesmo quando trabalha isolamentos de quadris ou ombros, fica evidente que ela está ali inteira, dançando com todo o corpo.

É importante registrar a participação de representantes da dança de salão e do flamenco. A Wultos Cia de Dança apostou em um conjunto de samba no qual a diferença técnica entre os homens e as mulheres presentes ficava clara nos momentos de uníssono. No caso da solista do Estúdio Flamenco Veruska Mendes, o volume do som mecânico abafou o sapateado e o tocar das castanholas dela, atravancando a conexão do público com a performance.

Outro estilo a ter um único representante foi o grupo da Licenciatura em Dança do Instituto Federal de Goiás. “Oração ao Tempo” é uma obra tributária a Martha Graham e transpõe o viés operístico da americana para o Brasil a partir do uso de Villa-Lobos como trilha. O resultado é dramático como os trabalhos mais célebres da coreógrafa, repleto de contrações e tempos alongados, mas falta a essa perspectiva uma atualização para conectá-la de forma mais eficiente com o presente.

Mostra infantil faz retrato da formação em dança em Uberlândia 

Realizada na tarde do último sábado (2), no Teatro Municipal, a Mostra Infantil apontou para uma constatação em relação à formação em dança em Uberlândia. Balé e jazz são as principais portas de entrada para o ingresso das crianças nessa arte, como ficou evidenciado pela quantidade de trabalhos desses gêneros apresentado no evento.   

Nas cinco coreografias coordenadas por Malu Vidal, vê-se um bem sucedido exercício de construção de personagens e de interpretação. Como existem limitações de ordem técnica devido à própria evolução natural de aprendizagem, esse é um caminho rico para explorar a musicalidade e expressividade das crianças, como se vê na gatinha retorcida de “Sweet Cat”, na malemolência dos braços da boneca de “Caixinha Mágica” ou no eletrizante conjunto de “As Smurfetes”.  

É uma aposta parecida com a dos números de jazz levados ao palco pelos grupos Talentinhos e Talentos Jr, que agregam a isso um caráter lúdico com a introdução de narrativas inesperadas e contemporâneas. Em “Keep Calm and Be a Stalker”, elas passeiam pela estética dos anos 1980 para explorar, de forma divertida, o exagero em torno do culto a celebridades. Já em “As Construtoras”, vemos pequenas bailarinas ocuparem o papel não de princesas, mas de engenheiras, reforçando o papel delas na elaboração do mundo de amanhã. Faltou injetar essa mesma toada em “Plantar Sonhos”, a coreografia de balé do mesmo grupo.  

Tal entendimento até está presente no Núcleo de Dança Priscila Prates, mas de forma um pouco menos organizada. No solo “Insônia”, perde-se a oportunidade de brincar com o elemento do travesseiro, resultando em uma coreografia apartada do item que justifica seu próprio tema. No conjunto “Homenagem a Michael Jackson”, é acertada a opção de celebrar o rei do pop a partir de sua fase também infantil, no grupo Jackson Five. Em “Dance”, a empolgação da música não faz jus à coreografia, controlada e contida demais para a toada pedida.

A “Valsa no 2” do Passo de Art Studio de Dança capricha na limpeza de um conjunto de movimentação simples, com passadas bem demarcadas, produzindo um efeito de encher os olhos. É uma moldura para destacar os solistas, que precisam atentar para a sustentação dos relevés. Da mesma escola, “La Fille Mal Gardée” apresenta uma Lise com a doçura e a precisão exigidas pelo papel. Com exceção dos fouettés, para os quais é necessário um trabalho suplementar, ela parece pronta para testar a variação nas pontas. Já o solo “A Felicidade não se Espera” explora as linhas alongadas da bailarina. Apesar de contar com boas finalizações, é preciso caprichar no polimento das transições de um passo a outro.

Nos números do Studio Sonhart Ballet, falta um pouco de ousadia. Sim, as bailarinas de “Corais” e “Pérolas” são pequenas e com poucos tempo de estudo, mas existem estratégias de composição para explorar as potencialidade delas dentro do que podem entregar, especialmente quando se tem uma música grandiosa de trilha, como no segundo caso. Em relação à coreografia “Dias de Sol e Chuva”, é preciso atentar para os pés: uma coisa é mantê-los propositalmente flexionados para fins coreográficos, outra é deixá-los frouxos entre um passo e outro.

O cuidado com os pés também deve ser uma preocupação da Cia Red Ballon. A bailarina é alongada e tem boa linha de pernas – e a coreografia explora isso -, mas essa beleza se desfaz quando ela caminha tocando primeiramente os calcanhares no chão ou girando desordenadamente em busca de mais rodopios.   

Para os dois solos apresentados pela bailarina do Studio Dance Daniela Reis, servem as mesmas orientações: é preciso trabalhar o en dehors e a linha dos braços desde os ombros.

Ainda no balé, houve duas “Florines”. Para além da técnica, a do Fama – Projeto Social revelou um consistente trabalho nas mãos, algo importante para a personagem. Na do CRNS, faltou aplicar à interpretação a mesma qualidade empregada por ela nos passos. 

Seguindo na seara dos repertório, o Studio A colocou no palco um “Fairy Doll” bastante limpo, com finalizações bem acabadas e pé sempre muito esticado, em uma versão plenamente adaptada às capacidades da menina. A “Doll” do CRNS também tem um pé invejável, mas precisa se empenhar para garantir a sustentação do corpo nos soutenou e retirés.   

No conjunto de balé do Grupo Arte e Cultura Sesc Uberlândia, houve momentos em que a coreografia extrapolou o domínio das bailarinas, borrando uma apresentação essencialmente graciosa. O mesmo acontece com o duo de gatinhas da Vidançarte Escola de Dança e Arte. No caso da composição livre do Ballet Samanta Florido, faltou costurar melhor o concatenamento dos passos de forma a não provocar pausas tão longas entre um e outro.

Dois grupos se dedicaram a evocar questões da infância, mesmo que de forma um tanto vaga. O Grupo de Dança Fadesom teve a sugestiva ideia de trabalhar dança e música tocada ao vivo pelas próprias crianças, mas isso se desfez junto junto com a abordagem do tema – ambos somem antes mesmo do primeiro minuto em prol de um enredo mais convencional. 

Já a dança de rua do Ticotinho misturou Balão Mágico com Michael Jackson em um conjunto repleto de entradas e saídas sem precisão, provocando um resultado cênico bagunçado. A organização no espaço também merece atenção da escola de Dança Ballet.art, com a necessidade de treinar saídas mais rápidas para dentro da coxia de forma a não comprometer quem fica no palco.

Único representante das Danças Étnicas, o solista da Cia Cedro do Líbano apresentou um bom trabalho de movimentação de ombros e de exploração do espaço. Fica a dica para ele fortalecer agora a energia na dinâmica das pernas.

Festival fecha com manifesto da Raça Cia de Dança sobre persistência do jazz 
por Amanda Queirós
 
Criado em São Paulo, nos anos 1980, o Raça foi a primeira companhia de dança baseada no jazz dance a conquistar projeção nacional. Isso se deve ao fato de sua fundadora, Roseli Rodrigues, ter usado esse espaço como um intuitivo laboratório de movimento, transformando-se em um nome incontornável para a inauguração de um pensamento brasileiro em torno de um jeito de dançar até então profundamente identificado com os Estados Unidos. 
 
Com a morte precoce dela, em 2010, muita gente decretou que o estilo, enquanto linguagem de pesquisa cênica, estaria com os dias contados no país. Apresentada durante o encerramento do 27º Festival de Dança do Triângulo, no último domingo (3), “aTEMPOral” põe tal afirmação em xeque.
 
Para o Raça, dançar sobre o tempo implica uma reflexão não apenas sobre sua história de quase 40 anos, mas também sobre a que está por se desenrolar. E honrar o legado de Roseli – talvez até mais do que remontar o repertório deixado por ela – passa por insistir em uma contínua evolução do jazz como um espaço vivo de elaboração de ideias a partir do corpo. 
 
Talvez venha daí a ideia do coreógrafo Jhean Allex de fazer de “aTEMPOral” um espetáculo matrilinear, tocado a partir de clássicos da MPB compostos por homens, mas entoados apenas por cantoras. 
 
A mulher está no centro desde a cena inicial, quando uma bailarina senta em um canto à frente do palco e, ao som de um mantra, o atravessa de costas com um lento deslizar, em um gesto sobre a necessidade de se avançar mas sem esquecer de voltar os olhos para trás. Ao passar por cada conjunto de intérpretes situado dentro do quadro, ela engatilha as ações deles, que, pouco a pouco, vão tomando a cena por conta própria.
 
Eles manipulam 12 caixas referentes a cada hora de um relógio de ponteiros, mas sem obedecer a uma ordem definida. Elas são reorganizadas sucessivamente tal como os próprios passos do jazz dentro da coreografia. Empilhados, dispostos em fileiras ou afastados uns dos outros, esses elementos cênicos inauguram espaços propulsores de combinações de movimento inéditas. Ao serem manuseados sem cerimônia, eles nos lembram ainda que, para além dos ciclos de dia e noite da natureza, o tempo é uma construção social: no fundo, nós o fazemos a partir de nossas escolhas de vida. 
 
Esse imenso relógio vai ser montado de forma cronológica apenas uma vez, delimitando um círculo dentro do qual a cena vai acontecer. Enquanto as caixas de som tocam “Eu Sei que Vou Te Amar”, forma-se uma espécie de carrossel onde os intérpretes trocam de lugar. Casais se desfazem enquanto outros surgem. O fim de um ciclo determina o início de outro, e os bailarinos do Raça vivem isso intensamente aos olhos do público.  
 
A passagem do tempo provoca também a transformação de percepções históricas. Como este é um espetáculo centrado na mulher, o levante recente da sociedade em prol do reconhecimento e fortalecimento feminino surge naturalmente. Isso se desenha com tintas um pouco mais carregadas do que as do restante da obra, destoando da sutileza predominante até então, mas sem borrar suas qualidades. 
 
Cena após cena, o trabalho se encaminha para um encerramento apoteótico conduzido por “Maria Maria”, de Milton Nascimento, propondo uma conversa entre o passado do Raça e a própria história da dança brasileira. A canção foi criada originalmente para o espetáculo de estreia do Grupo Corpo, em 1976, e partiu desse mesmo compositor a música responsável por batizar a companhia paulista.  
 
Somente neste momento o conjunto traz à tona um dos elementos mais simbólicos do jazz. Ao desconstruir e reconstruir cuidadosamente o estilo ao longo do trabalho, Allex produz um estado de antecipação responsável por transformar o uníssono daqui em uma explosão de vibração e de celebração à dança. 
 
Fechar a cortina neste ponto seria fácil, mas o coreógrafo propõe um epílogo em uma chave mais meditativa. Só com mulheres ao palco, ouvimos Elza Soares entoar os versos de “Comigo”.  “Levo minha mãe comigo / Embora já se tenha ido / Levo minha mãe comigo / Talvez por sermos tão parecidos”, canta ela à capela. Em cena, uma bailarina caminha por um corredor formado pelas demais e é amparada por elas quando parece desmoronar. No fim, mantém-se sempre de pé. Como não lembrar de Roseli? Como não lembrar da própria trajetória da Raça, entre altos e baixos, sempre a resistir?
 
A esta altura, não percebemos que a enorme ampulheta virada no prólogo, em um dos cantos da boca de cena, já parou de marcar o tempo. A areia vermelha escorre agora sobre a bailarina, sem a contenção do vidro, espalhando-se livremente pelo corpo dela e pelo palco, criando uma poesia visual. Enquanto o tempo nos escapa, ele também nos marca, em um fluxo contínuo.
 
O mesmo acontece com o jazz para o Raça. Essencial para a companhia, apesar de às vezes fugidio, ele só continua a existir se correr solto, valendo-se das fórmulas já conhecidas para ir além delas, como Allex faz aqui. “aTEMPOral”, portanto, pode ser lido como um manifesto sobre a persistência de uma linguagem ainda muito popular e que  pode ser muito contemporânea. O jazz está morto. Vida longa ao jazz! 
 
Mostra Amadora se despede com resumo da diversidade do festival
 
Antes do encerramento com a Raça Cia de Dança, o 27º Festival de Dança do Triângulo abriu espaço para a Mostra Amadora fazer sua despedida com um mosaico da diversidade de estilos vista sobre o palco do Teatro Municipal ao longo de seus seis dias de duração.
 
O Passo de Art Studio de Dança defendeu o balé por meio de dois solos. O primeiro, de vertente bastante acadêmica, apresentou uma solista com bom posicionamento de corpo – mas um toque de suavidade cairia bem aos braços dela. Já a variação do Cupido, executada com poucas falhas técnicas, pode crescer com um trabalho no equilíbrio entre ritmo e musicalidade.
 
No caso da dança de composição livre, houve dois grupos e um duo. O Nós na Dança delimitou sua ação a um retângulo branco no meio do linóleo preto, criando sequências que ressaltam a individualidade das intérpretes. Enquanto isso, o numeroso conjunto da Cia Red Ballon revelou uma coreografia com muita manipulação aérea. Desempenhadas pelas próprias garotas, essas pegadas demonstram uma força impressionante, mas precisam de um acabamento mais preciso e cuidadoso de modo a não provocar lesões em uma turma ainda em fase de crescimento. Já o duo do Ballet Samanta Florindo propôs uma combinação de dança de rua com jazz, bem ao gosto do público.
 
Para pegar o gancho do jazz, a Alex Academia apresentou uma coreografia de nível técnico elementar, mais preocupada em estabelecer um exercício de interpretação a partir dos encontros dos bailarinos uns com os outros.
 
Houve ainda o conjunto contemporâneo do CRNS, com uma movimentação mecânica que se torna mais orgânica ao longo da duração da música, e a dança de rua politizada do Balé do Asfalto, com uma construção de toque feminista em um estilo de dança no qual o machismo e a misógina ainda são muito presentes.
 
O representante da vez nas danças étnicas foi Thássia Camila Danças Orientais, com duas coreografias de conjunto. As duas performances mostram um conjunto ainda no início de seu amadurecimento cênico, e isso ressalta a importância de eventos como o próprio Festival de Dança do Triângulo para conferir experiência de palco aos bailarinos. 

Ao unir amadores e profissionais, festival fomenta ecossistema da dança

por Amanda Queirós

Existem vários jeitos de dançar. Há técnicas, estilos e inspirações capazes de produzir os mais distintos resultados em cena. Mas, no fundo, tudo é parte de um grande todo. Tudo é dança.

Em sua 27ª edição, o Festival de Dança do Triângulo faz uma defesa dessa ideia ao misturar crianças e adultos, experientes e iniciantes, para compartilhar o espaço do Teatro Municipal de Uberlândia.

O modelo de abrir as noites com espetáculos profissionais para só depois seguir com a apresentação de coreografias curtas de amadores traz uma plateia até então acostumada a ver apenas seus próprios familiares em cena. Esse contato permite o encontro com o diferente, que, por sua vez, potencializa novas conexões de pensamento a quem assiste, em uma ação direta de formação de público.

Para os bailarinos-estudantes, também é importante entender a multiplicidade de possibilidades para a construção de um espetáculo para além de números soltos, especialmente no que diz respeito ao concatenamento de ideias de uma cena a outra, responsável por tornar uma obra mais longa um produto único, e não só um acumulado  de momentos com vida independente.

Há de se ressaltar ainda a cautela empregada pelo festival quanto à adoção do caráter competitivo, restrito aos profissionais. Nos últimos 15 anos, eventos desse tipo se multiplicaram Brasil afora e se transformaram em um lucrativo mercado envolvendo, muitas vezes, seleção pouco criteriosa mediante pagamento de inscrições e longas sessões de apresentações que testam a paciência de um público não especializado.

A competição, por si só, não é de todo ruim. Ela leva os artistas a exigirem ainda mais de si mesmos em relação ao nível técnico e a se desafiarem no desenvolvimento de suas propostas com o objetivo de apresentarem algo cada vez mais instigante. Para bailarinos em formação, no entanto, sua aplicação de forma indiscriminada pode ser mais prejudicial do que benéfica, colocando rivalidades acima da essência expressiva dessa linguagem.

Financiado pela Prefeitura de Uberlândia, o Festival tem o compromisso de funcionar não apenas como um evento, mas como uma política pública. Por isso, qualquer sinalização rumo à ampliação da competição precisa ser estudada com responsabilidade, levantando prós e contras de como essa medida pode impactar a dança da cidade pelos próximos anos.

Pensar o papel do Estado na produção de uma atividade como essa também significa estruturá-la com outros desdobramentos. A oferta de oficinas gratuitas de média duração meses antes do início do próprio Festival trabalha nesse sentido. Elas proporcionam capacitação técnica, troca de experiências e abertura do olhar a novas propostas, além de induzirem a mobilização da sociedade civil em torno do evento, levando-a a se apropriar dele e torná-lo parte de seu cotidiano.  

Tudo isso ajuda a democratizar o palco do Festival de Dança do Triângulo – e a coexistência provocada por tal iniciativa é poderosa não apenas para quem deseja viver dessa arte, mas para a própria afirmação dela enquanto algo relevante para a sociedade, cultivando um ecossistema fundamental para a sustentabilidade da dança enquanto modo de vida. 

Síntese Edital – Principais informações

Passo a passo do sistema de inscrições

MAIS INFORMAÇÕES: (34) 3239-2566 / (34) 3235-9182 e pelo e-mail: festivaldedancadotriangulo@gmail.com

O atendimento para dúvidas estará disponível de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h.

Edital SMC nº 008/2019 – Seleção de propostas para o Projeto Festival de Dança do Triângulo – 27ª edição, do Programa Cultura na Comunidade

Resultado – Seleção das propostas para o projeto Festival de Dança do Triângulo – 27ª edição – “Expressões artísticas com olhar social”, referente ao edital SMC nº 008, de 2019.

  • ANEXO I – Calendário das atividades e programação
  • ANEXO II – Formulário de Identificação
  • ANEXO III – Termo de Autorização para Apresentação das Coreografias
  • ANEXO IV – Descrição de Material Cenográfico
  • ANEXO V – Termo de Autorização de Uso de Imagem e Voz
  • ANEXO VI – Termo de Autorização de Uso de Imagem e Voz para Crianças e Adolescentes
  • ANEXO VII – Termo de Autorização e Responsabilidade para a Participação de Crianças e Adolescentes
  • ANEXO VIII – Carta de Representação
  • ANEXO IX – Carta de Exclusividade
  • ANEXO X – Modelo de Declaração de que não emprega menor

FORMULÁRIO DE ALTERAÇÃO DE ELENCO E JUSTIFICATIVA

FORMULÁRIO DE SOLICITAÇÃO DE ALOJAMENTO

PALCO LIVRE – FORMULÁRIO DE INSCRIÇÃO